domingo, 31 de maio de 2009

Registro do dia 18 de maio de 2009 (manhã) – Maurício - Mau

“Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não palavra, ao morder a isca, incorporou-a. O que salva então é escrever distraidamente.”
Escrever as Entrelinhas. Clarice Lispector

Na parte da manhã do dia 18 de maio de 2009, no curso de Formação dos jovens do Centro Cultural da Juventude - CCJ, que acontece no Instituto Tomie Ohtake, foram desenvolvidos os planejamentos das oficinas, que serão realizadas nos próximos encontros. Nesse dia Mariana Galender, iniciou o dia, a partir de algumas questões levantadas nas conversas anteriores.
A realização das oficinas surgiu a partir da demanda dos próprios “monitores”, que desde o início da formação, em novembro, reivindicaram um espaço de trocas entre todos, pois, muitos deles desenvolvem uma série de ações nas mais variadas linguagens (pintura, grafite, dança, teatro etc.).
Tendo isso em questão, no planejamento da formação, foi aberto um espaço para que, dentro da linguagem das artes plásticas e da música fosse experimentada a ação de criar, planejar, executar e avaliar uma oficina.
Para isso, no dia, Mariana reiterou a importância da realização das oficinas dentro do curso de formação e suas relações com as pesquisas desenvolvidas na parte da tarde com Ângela Castelo Branco. Elas se inserem dentro de uma metodologia maior que visa desenvolver o olhar, a pesquisa, a ação, o registro e a avaliação.
Stela Barbiere, diretora da Ação Educativa do Instituto Tomie Ohtake, fez uma entrada e apresentou uma série de ações e oficinas dentro do Instituto e como elas balizam uma forma de pensamento através de metodologias criadas e recriadas nas práticas cotidianas pelas pessoas que vivem aquele espaço. Esse é um lugar vivo, de formação continuada, que fornece ferramentas diferentes para pessoas diferentes, logo o respeito à pluralidade de olhares é uma premissa desse setor.
Ela apontou para metodologias com um corpo tradicional e outras mais experimentais que acontecem nos diversos cursos e no atendimento aos grupos. A formação, que está em andamento, lida com algumas metodologias, para que eles se apropriem delas e com isso criem as suas próprias estratégias de pesquisa e de oficinas.
Foi levantado um exemplo de ação que vem ocorrendo no ateliê. Os educadores do setor desenvolvem um material educativo que é distribuído nos Encontros de Professores , realizado a cada nova exposição. Cada material é composto de transparências com imagens das obras expostas, textos sobre a instituição e sobre a Tomie Ohtake, bibliografia de referência e uma reflexão que é realizada cada vez por um educador. Essa reflexão é feita de forma livre e criativa por cada um, que aponta uma maneira possível de se pensar uma problemática poética. Esses textos ganharam um corpo interessante e hoje se pensa na possível publicação dos mesmos.
Esse exemplo foi para elucidar a maneira orgânica, como as ações e metodologias ocorrem no setor e que com o tempo vão ganhando outras dimensões e outros espaços de locução.
No final foi comentado sobre os registros feitos pelos monitores do CCJ até então e a importância deles comunicarem, para que tenham a potencia de levantar questões e problematizar a mesmas a partir de um olhar pessoal e reflexivo.
Em seguida, Mariana Galender dividiu os seis grupos que irão desenvolver as pesquisas e eu (Maurício), Joana Mussi, coordenadora dos monitores e ela, fomos passando pelos grupos, ajudando nos encaminhamentos.
Passei por todos os grupos, uma questão me fez refletir minha postura; como colaborar nos encaminhamentos das oficinas sem que minhas colocações dirijam uma escolha?. Isso de certa forma perpassa todas as pessoas que lidam com educação, qual o momento certo de fazer uma intervenção? Existe esse momento?
Pela minha experiência, prefiro atuar e indicar direções a partir do momento que sou chamado ou indagado sobre certas questões. Acredito que isso não seja uma negligencia da minha parte, mas é uma confiança no outro, que é capaz por si só de resolver problemas e encontrar soluções. Acredito no espaço de diálogo horizontal entre as pessoas, em que não existe hierarquia de saberes. Essa postura nos dá mais trabalho, pois, precisamos o tempo todo estar atento a cada palavra, a cada gesto para não nos embriagarmos de nossas próprias falas.
Para isso, precisamos tomar cuidado com certos papeis que possam legitimar falas ou opiniões, a palavra final de um professor em uma sala de aula ou de um educador em uma visita orientada tende a soar como uma verdade, como um ponto final da discussão, porém acreditamos no contrário. As verdades estão relativizadas e colocadas em conflito a partir dos vários pontos de vistas, logo uma conversa, ou sugestão de encaminhamentos deve ser um espaço de conflito, de tensões, de dúvidas entre todos os envolvidos, em que todos estão em um mesmo patamar de discussão.
Obviamente, que o educador responsável pelo grupo possui uma obrigação com ele, no sentido de que possui um compromisso com a tradição (cultura), nos termos propostos pela pensadora Hannah Arendt , ou seja, um compromisso com a criação de um solo cultural comum para que os “sujeitos”, “eus”, “seres” sejam capazes de se recriar esse espaço, em um momento oportuno. Dessa forma, acredito que os “monitores” possuem um solo comum, que está em constante expansão. Esse espaço pode ser repensado e reinventado por eles mesmos e o nosso papel é colaborar para que isso aconteça, para que nos reinventemos como grupo, como coletivo, como um ser único o planeta.
Finalizando, para que tudo isso ocorresse, cheguei às oito horas ao Instituto Tomie Ohtake, verifiquei se tudo estava certo para que o encontro ocorresse como o planejado. No dia anterior, no domingo a noite, retomei todos os passos do encontro com Mariana Galender pelo telefone, como o de costume, sendo que na terça feira passada tínhamos feito uma reunião para afinarmos as estratégias do mesmo.
Ou seja, o fato da sala estar arrumada em círculo, do datashow estar preparado, do lanche chegar no horário, das reflexões estarem prontas para serem lidas exigiu uma série de ações de outras pessoas que fazem com que a coisas aconteçam no ateliê.

Registro do dia 18 de maio (tarde) – Ângela

Nos últimos encontros passamos por um ciclo intenso de questionamentos acerca das estratégias adotadas pela equipe de coordenação, sobre o sentido das pesquisas, tema das oficinas, o porquê do registro, etc. Entendo estas perguntas como um grande resultado do próprio trabalho construído, que busca a formação de sujeitos não autômatos, mas, enquanto educadora do grupo, não posso deixar de sentir o peso do comprometimento em estar o tempo todo pronta para responder tais inquietações, apontar novas formas de olhar, acolher sem resistências os problemas que me trazem e utilizar tudo isso como energia para colocar o pensamento para funcionar.
De uns tempos para cá tenho pensando que esta função não pode ser somente minha, da Mari, do Mauricio e da Joana, até porque seria impossível termos um profissional tão capacitado assim para atender a todas as demandas do grupo e também seria muito apaziguador, porque não haveria provocação e nem diálogo na horizontalidade.
Motivada pela leitura do livro Caosmose de Feliz Guatarri , que em seu último capítulo narra uma experiência de trabalho de inversão de papéis com um grupo de pacientes com psicose, propus esta mesma atividade com os monitores nesta tarde. É claro que esta atividade foi apenas uma experiência, sem a mesma radicalidade que o autor se propõe, mas acredito que esta experiência já valeu para abrirmos outras possibilidades de se pensar e agir.
Segundo Guatarri, as práticas cristalizadas sociais nos obrigam a desempenhar modos de vida também institucionalizados. Ou seja, se adotamos uma prática inerte nas tarefas do trabalho, isto implica também em uma postura passiva na vida e na nossa forma de pensar. Para ele, a alteração de papéis e responsabilidades abre uma outra perspectiva ética, não mais tecnocrática, mas criadora de novos modos de subjetividade.
Foi pensando nisso que propus para o grupo que a Luanda (monitora) exercesse o papel de Ângela (tutora do grupo) e vice-versa. Mais do que uma brincadeira, a proposta era alterar estas posturas já sabidas do nosso corpo e da prática do pensamento. Luanda aceitou a proposta e direcionou as reflexões sobre os registros do Luís e da Simone. Não conseguimos ler o registro da Regina, que ficou para a próxima semana. O próprio Luis leu o seu registro, que de tão preciso e bem elaborado não provocou perguntas sobre a intenção do texto ou sobre a sua forma: o grupo todo se viu mergulhado nos questionamentos dele. Aquelas perguntas postas no texto em forma de relato, argumento ou ironia eram as nossas mesmas perguntas. Falando de sua individualidade e assumindo uma posição diante de uma questão, Luís nos fez lembrar de nossas próprias perguntas e de nossas próprias posições.
Então conversamos (talvez mais internamente do que externamente) sobre nossa crença na relação íntima entre cultura e educação, entre formação e transformação, nas diferenças entre monitor e educador, no papel de cada um... ou seja, questões que dizem respeito ao nosso posicionamento no mundo. Um registro que é uma tomada de posição também provoca uma tomada de posição daquele que lê. Aqui ficou muito clara a importância de se pensar para quem escrever, ou seja, a intencionalidade da escrita (e pensar nisso não seria possível sem a presença da Maria das Graças).
(Luanda neste momento estava ótima, motivando o grupo e voltando-se a todo o momento para o texto, procurando algo a mais para contribuir, parecia que estava com a responsabilidade em suas mãos. Eu, como monitora, por vezes esperei uma intervenção dela. É incrível como isso muda o nosso modo de ver. Me percebi assistindo o grupo, mas logo percebi que eu era parte integrante do grupo, não podia deixar tudo na responsabilidade dela. Opinei também. Não sei se como Ângela ou como Luanda.. apontei a ela que estávamos com o tempo curto, passamos para a leitura do texto da Simone).
Simone escreveu-nos sobre o encontro com Juliano Pessanha. Infelizmente nós não tivemos tempo de conversar sobre a sua visita logo depois que ela ocorreu. Fiquei achando que ele tinha tocado em questões muito delicadas do nosso modo de pensar e podia ser que ele não fosse tão bem interpretado. E foi isso que a Simone nos trouxe em seu registro. Que ótimo! Justamente a sua inquietação com alguns conceitos que desbancam o nosso modo costumeiro de pensar. Em primeiro lugar: “o mundo é uma grande mentira”. Juliano se referiu a isto como um modo enfático de apontar que mundo ocidental pensa a partir do conceito de verdade única, objetiva e na crença de que existe um “eu” único. Para ele e para muitos filósofos contemporâneos, esta é a grande mentira do nosso mundo.
Não vamos aqui aprofundar estes conceitos, mas foi muito interessante que a Simone deixou aparecer sua inquietação e apresentou argumentos para demonstrar o quanto estava “tomada” por eles. Perguntei a ela para quem escreveu o texto e ela brilhantemente respondeu: “para mim, para o Juliano”. E pensamos: na verdade, Simone escreveu para o “Juliano” que havia ficado dentro dela.
Depois, a conversa sobre este encontro foi ficando um pouco dispersa e a Luanda tentou arrumar a situação, mas acho que não conseguimos chegar a um consenso geral. Até porque precisaríamos assistir novamente o vídeo do Juliano e discutir seus aspectos principais. Eu escrevi o registro sobre este dia, talvez pudéssemos comparar e retomar a conversa, se for importante para todos.
Percebi de modo geral que a situação de inversão de papéis começava a ficar interessante e propus um desafio: eu, enquanto Luanda, poderia escrever o registro deste encontro, e é por isso que resolvi escreve-lo em primeira pessoa, detalhando a minha visão sobre os micro-acontecimentos e os micro-olhares do dia. Gosto de olhar para o grupo enquanto estou coletando pequenos indícios de humores e quase sempre encontro os olhos da Bárbara, do Bruno, do Judson, do Odair, ou do Lucas, etc.. (mas neste dia o Lucas não estava... ou aliás, estava, pois eu me perguntava: porque será que ele não veio? e o Renato, e o Daniel, e a Mônica, a Juliana, e o Robson... estão sempre todos ali comigo, mesmo sem querer... )


Então terminamos esta conversa sobre os registros e reforcei mais uma vez que o modo de escrita e como estamos utilizando o registro no curso é apenas um dos modos de se utilizar registro, não uma verdade única. Valerá para o CCJ que o registro seja utilizado de um modo autoral e totalmente adequado à realidade e às necessidades de lá, ou seja, deverá ser reinventado. Não é interessante que as estratégias utilizadas na formação do Instituto Tomie Ohtake sejam aplicadas igualmente no CCJ.
Partimos para a discussão sobre os grupos de pesquisa. Retomamos a importância de se fazer a pesquisa em grupo, cujo objetivo é a negociação e a construção coletiva de um modo de pensar a realidade. Para nós não importa um tema bem desenvolvido se todo o grupo não está apropriado da questão ou se apenas uma pessoa se interessou ou desenvolveu o tema.
Dividimos a sala em pequenos grupos e acrescentamos mesas de trabalho com referências bibliográficas sugeridas pelos convidados de cada área. Os grupos selecionaram alguns textos, pesquisaram na internet, traçaram novas ações e no final do dia apresentaram as próximas ações. Ficou definido que para a próxima tarde alguns grupos iriam sair para realizar entrevistas e outros permaneceriam trabalhando a partir de dados coletados durante a semana.
Todos apresentaram seus encaminhamentos e a Luanda conduziu o fechamento do dia. Neste momento o grupo se parecia mais com um “comitê de trabalho” para definir as estratégias de “guerra” do que com uma manada desorganizada de búfalos. Havia até um grupo que foi misterioso em nos dizer sobre suas próprias ações...
Segundo ela, esta mudança de papel garantiu que ela ficasse “mais atenta” ao dia. Para mim, esta mudança me fez lembrar de uma frase do próprio Guatarri: “um conceito só vale pela vida que lhe é dada”. Então, começo a perceber que o aprender está diretamente ligado ao fazer, a uma tomada de posição rotineira e revelada em cada fala, deslocamento ou gesto que produzimos.

Um comentário:

Edivaldo Lopes disse...

Ola ! chei muito interessante seu blog
agora estou a seguir eu faço parte di nucleo de juventude do espaço criança esperança de são paulo .
espero que voceis do ccj gosten do nosso blog.